Entenda todas as referências de “Formation” da Beyoncé

A essa altura do campeonato você já viu e leu tudo que era possível sobre o novo single da Beyoncé, “Formation”, mas eu gostaria de comentar alguns aspectos desta nova Beyoncé Giselle Knowles, que pela primeira vez apareceu dessa forma.

Sim, “Formation” DESTRÓI, a música é poderosa e o videoclipe é icônico. Com um pouco menos de impacto, podemos dizer que é a versão feminina do vídeo do Kendrick Lamar para “Alright”, um dos melhores de 2015, também com temática racial. Mas enquanto o do Kendrick foca na brutalidade policial, o da Bey foca em New Orleans.

Para quem não sabe, New Orleans é um dos locais nos Estados Unidos onde a cultura negra é mais efervescente, rica, cheia de texturas, berço de vários movimentos e costumes da comunidade. Musicalmente é uma das regiões mais apreciadas.

Vamos então discutir alguns pontos dessa obra que não para de ser polêmica

O novo som da Queen B

Falando em música, eu gostaria de ressaltar o novo caminho que a ex-vocalista do Destiny’s Child vem trilhando. Já repararam que ela não anda cantando mais? Tenho a impressão que tudo da Beyoncé agora é rap-sing. Todos os últimos lançamentos pendem para o rap cantado. Desde o “Beyoncé”, em 2013, o primeiro lançamento que tivemos foi o remix de “Flawless” com a Nicki Minaj, que é praticamente um rap. Temos a participação dela em “Feeling Myself”, outra vez, rap-sing, o single “7/11” e agora “Formation”, no qual ela praticamente não canta outra vez. A única exceção nessa sequência é a colaboração com o Naughty Boy, “Runnin’”, mas aí é um projeto dele. Será que no próximo álbum a Mrs. Carter vai focar ainda mais nesse estilo? Será que está querendo poupar sua voz? Será que se apaixonou pelo estilo? Aguardemos o “Formation CD” para saber. Aí poderei comentar se minha teoria tem fundamento.

Beyoncé Politizada

Depois de analisar o vídeo e a letra de “Formation” eu fiquei bem impressionado. Ela nunca levantou bandeira política ou racial dessa forma antes. Vez ou outra ela dá uma pincelada nesses assuntos, como por exemplo, sendo pró-Obama, na obscura b-side “Creole” ou com os recursos que arrecadou com a Survivor Foundation em prol das vítimas do Katrina. Mas assim, colocando dedo na ferida e celebrando ser negra, provocando a ira dos racistas, é novidade. A bandeira dela sempre foi a do empoderamento feminino, que culminou em “Flawless” e todo o texto feminista da Chimamanda Ngozi. E isso estava OK com a White America, mas agora que ela grita “Black Lives Matter” e fala que gosta de cabelo afro e narinas largas como as do Jacksons 5. Os brancos surtaram. A esquete “The Day Beyoncé Turned Black” no Saturday Night Live é o exemplo PERFEITO disso. Eu não teria como colocar melhor, haha.

6 momentos de celebração da cultura negra em “Formation”

São tantas referências ao orgulho negro em “Formation”, que fica difícil mencionar todas, mas podemos citar algumas menos óbvias.

1 – NEW ORLEANS -> duhhh. Dispensa explicações. Durante todo esse post só falamos de lá.

2 – “What happened after New Orleans?” O clipe abre com falas do Messy Mya, celebridade do Youtube de New Orleans que foi assassinado na rua. O assassino CONFESSOU ter atirado nele, que é afro-americano, e durante o julgamento na justiça, disse ser bipolar. Ficou 18 meses na ala psiquiátrica de uma prisão e depois foi solto. Em seguida alegou não ter NADA A VER com o crime (sendo que já tinha confessado). Não deu em nada. E ele é um exemplo perfeito do que realmente acontece sempre. Negros e mestiços sendo assassinados, mas os responsáveis são inocentados.

3 – BIG FREEDIA. Quem também tem falas entre a Beyoncé é a rainha Big Freedia, mas vou dedicar um capítulo só a ela, porque curto demais.

4 – A letra tem menções óbvias e não óbvias à cultura negra.
“I like my baby hair with bay hair afro” – e nisso Blue Ivy rodopia orgulhosa de seu black power.
I like my Jacksons 5 nosetrils” – orgulho de ter a narina larga como à da família Jackson, todos negros.
I might just be a Black Bill Gates in the making” – ela é uma negra tão poderosa que vai ser a versão negra do Bill Gates.
I See It, I Want It, I Stunt, Yellow-bone it” – Bey é considerada ser uma negra yellow-bone, que é o afro-descendente que tem um tom de pele mais mel. Aqui ela fala que tem orgulho de ser negra, mesmo sendo considerada a negra de pele clara. Sempre recebe críticas por quem diz que ela não é negra o suficiente e que clareia a pele.
I got hot sauce in my bag, swag” – Talvez a frase mais forte e subliminar do orgulho negro na música. Os brancos não entendem isso, nem eu entendi, tive que pesquisar para entender. Era MUITO comum que as famílias negras andassem com com vidros de especiarias mais apimentadas na bolsa. É uma referência muito específica, mas li diversos relatos de negros que disseram que quando leram essa frase, lembraram bem de suas infâncias, da escolha culinária de suas famílias, bem característica, e das suas mães sempre com um vidro de tempero bolsa. Isso aconteceu também por resultado dos movimentos migratórios dos negros no sul dos Estados Unidos. Os brancos por lá costumavam usar outros temperos, então os negros andavam com os seus na bolsa. É um ponto tão pequeno na música, tão simples, mas incrivelmente impactante, e que os brancos não entendem.

Ok Ladies, Now Let’s Get In Formation” – não é um mero “vem galera”. Entrar em formação pode ser uma clara referência ao movimentos dos Panteras Negras ou de outros grupos que entram em formação para combater um opressor. Quase um “entrar em formação de guerra”.

5 – as referências visuais às tradições de New Orleans. Tem de tudo! Celebração do Mardi Gras, das paradas pelas ruas, bandas de fanfarra e até uma cena dentro de uma loja de perucas e full laces.

6 – as imagens de provocação. Enquanto a maioria das cenas que representam New Orleans são de celebração à cultura negra sem atacar ninguém, alguns momentos são provocações e recados mais claros. Tem um jornal que exalta Martin Luther King e diz “mais que um sonhador”, o menino que dança em frente um paredão de policiais brancos e a parede traz a mensagem “parem de atirar em nós”, o carro de polícia afundado nas águas que destruíram New Orleans durante o Katrina e as negras alforriadas como “patroas”. Até nisso há uma sensibilidade. Quando elas aparecem de branco, representam a fase que as negras que não mais eram escravas ainda eram oprimidas, apesar de livres. Já quando Bey vem de preto e tranças, está acompanhada por homens negros de preto, muito mais empoderados e sem a delicadeza anterior.

BIG FREEDIA THE QUEEN DIVA

Voltando ao assunto Big Freedia, que disse que voltaria com mais calma. Para mim é uma explosão de cabeça ver Freedia e Beyoncé juntos. Eu conheci ela pelo Diplo na verdade. Quando o dj lançou um EP que tinha a faixa “Express Yourself”, que usava de base o gênero musical conhecido como “bounce”, que nasceu e é símbolo de New Orleans. É agressivo, enérgico e super dançante. Eu fiquei encantado, e quando fui pesquisar mais me deparei com Big Freedia, que é o ícone mais pop do estilo. Enorme, desbocada e super bem-humorada. É uma figura que você não esquece. Maravilhosa. E Beyoncé convocou essa estrela para falar 4 frases na música ali por volta do 1:10 no videoclipe, só para dar mais credibilidade à obra. Um gesto inteligente, porque ela poderia fazer como a Taylor Swift em “Wildest Dreams”, que foi lá filmar na África e não usou ninguém local, mas “Formation” chega com a credibilidade dos artistas locais, que são aproveitados nesse single.

Eu acho incrível essa parceria, e que nasceu uma amizade daí. Kelly, Beyoncé e Solange foram a um show da Big Freedia em New Orleans e ela foi convidada (e compareceu) para o aniversário de 60 anos da Miss Tina Knowles. <3

Quem quiser saber mais da Big Freedia, recomendo o documentário “Big Freedia The Queen Diva”. Tem aqui completo no youtube.

Big Freedia – Explode

Causando com moderação

E aí veio a performance do Superbowl. Todo mundo chocado que ela cantou uma música tão polêmica para 114 milhões de americanos ao vivo na TV. Pra já começar, todas as dançarinas estavam de preto, erguendo os braços, uma homenagem às Black Panthers. Movimento de protesto que visava defender as minorias contra os abusos do governo americano.

Só que uma estrela tão minimamente calculada como ela se assegurou que a polêmica viesse com moderação. Analisando a versão que foi cantada no Superbowl e a versão de estúdio da música, dá para ver que rolou uma edição pesada para deixar o single mais “familiar”, mas sem perder o valor de choque. Reparei que ela retirou a menção aos Illuminati, a parte que diz que “leva o cara para jantar no Red Lobster se ele trepar direito”, e outros momentos. Ficou o “black pride” e a exaltação ao fato que ela “slay”.

Vale a menção honrosa ao colete do Superbowl, que é idêntico ao usado por Michael Jackson na Dangerous Tour.

Agora que ela já causou alvoroço e já anunciou a “Formation World Tour” para o verão americano. Será que vem cd novo para acompanhar? Esperamos que sim! Já estamos em ‘formation‘ só aguardando.

Comentários

comentários

1 Comment

Deixe uma resposta