Provavelmente Nicola Roberts não poderia ter escolhido nome melhor para seu cd do que “Cinderella’s Eyes“. Assim como a princesa dos Contos de Fada sempre foi a maltrapilha até uma fada madrinha transfomar sua vida, Nicola também sempre foi considerada a feia e a estranha no seu grupo Girls Aloud, mas agora em carreira solo ela provou que pode ser a melhor até que Cheryl Cole e Nadine, as integrantes do grupo que já se arriscaram em carreira solo.
Tudo que envolve esse projeto é pessoal pra ela. “Cinderella’s Eyes” não tem letras genéricas e comuns, A ginger aloud tem co-autoria em todas as faixas do disco (exceto no cover “Everybody’s Got to Learn Sometimes”) para garantir do que as músicas fossem mais do que rimas, tivessem significado com sua história de vida.
Como ela sempre foi a estranha, a escolha por fazer um cd pop menos mastigado, direcionado sim ao mainstream entretanto mais de esquerda, com produtores fora do eixo pop comum mundial foi uma boa decisão.
A primeira música resume a essência do projeto todo. “Beat of My Drum” veio de onde ninguém esperava. Produzida por Diplo, o single chegou sem muito alarde e de repente se tornou febre em todos os blogs do mundo. Os samples discretos de “Pon de Floor” aliados às batidas fora do eixo dancepop que devora as rádios revigorou o gênero e deixou todo mundo apaixonado se perguntando que música é essa? O clipe dirigido por Wendy Morgan apresentou ginger oficialmente ao mundo, em looks 70′s inspired, um estilo sensacional e movimentos curtos e controlados, todas as características com as quais já nos acostumamos hoje foram apresentadas. “Beat of My Drum” está a anos-luz de qualquer coisa que qualquer Girl Aloud já lançou. A falta de presença de palco de Nicola e o approach não tão comercial como o de Cheryl Cole impediram com que a música se tornasse o hit global instantâneo que merecia ser.
Confira abaixo o resto da saga da Cinderela Ruiva:

Depois dessa primeira empreitada ficamos ávidos por mais Nicola. O que será que ela tem para oferecer a mais? Veio o segundo single “Lucky Day“. Nesse ponto todo mundo já esperava que ela lançasse um dos melhores cds pop do ano após ouvir a música co-escrita pela canadense Martina Sobara do Dragonette e produzida por Dimitri Tikovoi em parceria com o Dragonette. Produtor de metade do cd, o francês Dimitri é conhecido por trabalhar bem com pop (Sophie Elix-Bextor, Goldfrapp) e com rock (The Horrors, Placebo, etc). “Lucky Day” fala sobre aquele dia que você acorda torcendo pra tudo dar certo, que insiste até que…no fim dá certo. O vocal na faixa é trabalhado maravilhosamente. Alguém mais se perguntando porque isso não foi um sucesso tremendo nas rádios?
“Yo-Yo” nos mostra um lado diferente. Menos efusiva e mais romântica, tem o refrão mais grudento de 2011: “don’t want to be the last to know, will it be a yes or no o o, you swing me up, you swing me down, I feel like a yo-yo“. O middle 8 da faixa muda a voz dela para tons altíssimos, dignos de Kate Bush, com quem muitos comparam. Aliás quando perguntada com quem ela gostaria de trabalhar no cd, o principal nome era Kate Bush, porém alegou que foi difícil contactá-la e acabou não acontecendo. Então ela resolveu cantar como Kate Bush não é? Rs. É minha favorita do cd todo.
Yo-Yo ao vivo no DMA
Em “Cinderella’s Eyes“, uma das primeiras músicas que ela escreveu do conjunto todo, a vozinha de Kate Bush está de volta na música que narra, de acordo com a nossa Princesinha Lexotan, a aventura de uma personagem chamada Bela Adormecida que acorda e começa a imaginar o que o mundo reserva para ela, se serão coisas boas ou ruins. Toda a arte do cd é inspirada em Contos de Fadas.
Os synths rápidos e bem presentes na produção de Tikovoi fazem dessa faixa a mais parecida com o trabalho do Girls Aloud. Mostrando o quão mais cool ela é do que o resto das meninas, no middle 8 da música ela criou uma versão 2011 da icônica cena do filme Trainspotting no qual Ewan McGregor diz que uma pessoa tem que escolher tudo para viver. Só que aqui é Choose to learn, Choose to love, Choose to laugh, Choose to play, Choose to care, Choose to ask, Choose to speak, Choose you.
A pop progressiva “Porcelain Heart” traz Nicola para as pistas, mas não de uma forma óbvia como era de se esperar. Começando com um leve tilintar e uma pequena buzina que evoluem para uma veia Ítalo-disco. Uma das poucas músicas no álbum todo que não mostra o lado frágil. É uma das minhas favoritas com essa batida pulsante e emergencial.
“i” é a primeira de duas músicas nas quais ela trabalhou com Joseph Mount do Metronomy. Lembra quando eu falei que ela compôs em todas as faixas do cd? Essa é uma das mais autorais, o que era de se esperar de uma música que se chama “EU”, não é? N-Robs revela seus medos, de não agradar em seu novo direcionamento e de acordar um dia e ver que sua bolha estourou, até medo de envelhecer. A produção dark de Mount também revela tudo que ela não curte, como os comentários maldosos na internet, que foram muuuiitosss em 10 anos de Girls Aloud. Um órgão e muitos synths acompanham-na enquanto ela abre o coração, rs.
“Everybody’s Got to Learn Sometimes” é um cover da música da década de 80 do The Korgis. Se você se pergunta o que esse cover faz aqui, saiba que foi uma requisição da própria Roberts. Ela afirma que a faixa pode não ter tanta emoção para a maioria das pessoas, mas que se identifica com cada palavra e ama a música, por isso ela está aqui. Não faz mal também um cover pop inusitado em um cd que quer ser cool e “quirky“. Pretensioso? Um pouco. Mesmo não superando a original, a produção é tão 80′s quanto a original e bem gostosa com uma parte distorcida no meio quase alucinógena.
“Say It Out Loud” é um dos poucos pontos fracos do disco pra mim. A produção é redondinha, casa com o resto do cd, tem um refrão grandioso, muitossss synths 80′s e beeps 8-Bit soltos ao longo de seus 4 minutos, mas não me identifiquei com ela. Não trouxe nada de novo ou de especial. E até a letra é meio Dr. Luke-ish demais pra mim. Seria boa se o que está em volta dela não fosse tão melhor.
“Gladiator” é meio maluca mas funciona. Começa com um vocalzinho agudo-absurdinho Kate Bush-ish de novo a la “What You Waiting For” da Gwen Stefani e no refrão não consigo lembrar de mais nada a não ser “He-Man” do Trem da Alegria, SÉRIO. A faixa disco mostra novamente uma lado mais forte da cantora ao invés da bonequinha de porcelana de 70% do “Cinderella’s Eyes”.

A segunda música produzida junto com o Metronomy é a também darkpop “Fish Out of The Water“, o que é meio óbvio, porque é a que tem mais a cara da banda. Ao contrário de “i” que é ousada mas é boa, aqui eu achei que o órgão arrastado de fundo não fez muito pela faixa. Os primeiros 10 segundos são intrigantes, mas no resto eu achei que a música tenta demais ser estranha. A letra é bem autoral como vocês percebem só pelo título: peixe fora d’água. É você mesmo, minha filha.
Aqui pela faixa 11 a gente já tem certeza que o que vem é alguma produção absurdinha com synths distorcidos com uma letra esquisita. Bem, é isso mesmo com a divertida “Take a Bite“. Nicola endereça uma briga antiga com o grupo Busted “called me a rude ginger bitch, they’re gonna eat all their words“, “I’m gonna kick your ass in 3D” e se arrisca até no rap. Obviamente uma garota branca como Nicola não pode fazer rap, mas pela natureza comédia da música até passa, e se serve de elogio ela parece uma mistura de Robyn com Dragonette nessa música.
Encerrando um disco tão autoral, com 11 faixas, cada uma contando um pedaço de sua vida, de seus segredos e seus sentimentos, não é surpresa nenhuma saber que ela termina com a música mais pessoal de todas, “Sticks + Stones” mas Nicola conta que queria uma música que passasse um mensagem para todos os ouvintes de que mesmo sofrendo, eles não estão sozinhos, muitas pessoas estão passando pelas mesmas situações.
Ilustrando a baladinha de caixinha de música ela cita alguns exemplos pessoais, como a época em que ela implorava seu motorista para ir comprar vodka quando era menor de idade, e apesar de não ter idade nem para comprar álcool, as pessoas achavam que ela tinha idade suficiente pra aguentar ser chamada de feia o tempo todo, de novo e de novo. Eu mesmo, quando conheci Girls Aloud, confesso que a primeira coisa que falei foi “nossa, quem é aquela feinha ali?”, fiquei até com remorso, haha.
No conjunto da obra “Cinderella’s Eyes” não é um cd pop que você ouve todo dia. Roberts sabia que a sua maior vantagem sobre a concorrência era seu jeito diferente de popstar imperfeita e seus sentimentos. Ela os usa muito bem nas 12 músicas do disco, com produtores ousados e respeitados que criaram batidas inusitadas que propiciam uma experiência pop quase selvagem com muito mais acertos do que erros. Já chegou com a maioria de nós sabendo que seria um dos melhores discos pops do ano.
Infelizmente, mesmo com tanta qualidade, elogios incansáveis de todos os lados e resenhas favoráveis do The Guardian, The Daily Telegraph, NME e todas as outras grandes publicações britânicas o disco não parece que fará o sucesso merecido. O que está faltando na nossa Princesinha Lexotan?
Acredito que “Cinderella’s Eyes” tem duas grandes questões. Primeiro a falta de energia e presença de palco de Nicola. Não adianta, ela é assim mais lerdinha e já transpareceu isso em entrevistas, é molenga, e isso com certeza prejudicou o desempenho de músicas prontas para a glória como “Beat of My Drum” e “Lucky Day”. Pixie Lott tinha lá aquele single horrível “All About Tonight” mas dançou a pussy dela para o topo, rebolo, rebolou e conseguiu um #1.
Outra observação: quando um disco é pessoal demais ele diminui seu público. Quem não se sente tão fragilizado como Nicola pode não se identificar. Cada uma das 12 músicas conta uma história muito específica, cheias de referências à própria vida da cantora. Cantar algo mais genérico garante muito mais sucesso, daí esse sucesso enorme do dancepop no mundo. Além das batidas enérgicas as letras geralmente falam “don’t don’t stop the party”, “i want to dance with you all night”, etc, são bem universais. Como nós somos brasileiros e falamos português, vamos mais pela melodia da música, apesar de que a letra tem seu papel, mas para quem tem como língua nativa o inglês, a letra é uma grande parte de qualquer gravação, as pessoas precisam se relacionar com o que está sendo cantado.

“Cinderella’s Eyes” é um cd 100% Nicola. Ela compôs em tudo, colocou pra fora todas as mágoas que aguentou em 10 anos de Girls Aloud, trabalhou com todo mundo que queria, de Diplo a Metronomy (só não conseguiu Kate Bush) e nos entregou um disco que a apresenta como indivíduo e não como um grupo. Eu fui um que a conheci a partir de “Beat of My Drum”, e fiquei satisfeito com a pessoa autêntica que ela é e com o som inesperado e inventivo que ela nos trouxe. Eu diria que ela é uma espécie de Gwen Stefani britânica, quando ouvi pela primeira vez o “Love Angel Music Baby” lembro que fiquei intrigado pelas batidas estranhas e deslocadas, é o mesmo sentimento que eu tive ouvindo o disco da Nicola. Espero que venha mais dessa fonte.
Don’t Skip: “Beat of My Drum”, “Lucky Day”, “Yo-Yo”, “Porcelain Heart”, “i”, “Gladiator” e “Take a Bite”.

Nicola Roberts – Cinderella’s Eyes
01. Beat of My Drum
02. Lucky Day
03. Yo-Yo
04. Cinderella’s Eye’s
05. Porcelain Heart
06. I
07. Everybody’s Gotta Learn Sometime
08. Say It Out Loud
09. Gladiator
10. Fish Out of Water
11. Take A Bite
12. Sticks + Stones








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